sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Precisar



O poeta precisa beber, pra deixar vir à tona.
O inconsciente, consciente da desilusão.
Amores que na mente se foram
Mas que habitam em cantos escuros do coração.

O poeta precisa amar, para assim das alegrias.
E loucuras do amor poder falar
Pra que outros possam depois dele
Não terem medo, mas sim vontade de amar.

O poeta precisa sofrer, pra nas suas desgraças.
Arrancar a máscara, e a carapaça.
Pra saber que é homem e não Deus
Pra falar a quem sofre, pois sofreu.

O poeta precisa viver e morrer, pra na sua morte.
Ver o fim da vida e o começo da eternidade
E no seu viver uma pessoa
Como outras, cheia de humanidade.

Você



O som agudo oriundo do relógio marcava mais uma longa hora de aprendizagem – ao menos a tentativa.
- Ele acaba de entrar e sair do escritório.
- Não. Ele acaba de entrar no escritório e sair.
- Mas por quê?
- Não pergunte, só faça.
- Tu e teu amigo se enganaram.
- Não. Você e seu amigo se enganaram ou, tu e teu amigo vos enganastes.
- Por que?
- O pronome “tu” mais um outro da terceira pessoa ou nome é igual a “vós”. Entendeu?
- Sim, sim.
- Próxima.
- Quero-lhe ao meu lado.
- Errado. Quero-a ou, quero-o ao meu lado.
- Por que?
- Porque o verbo querer, na acepção de desejar pede objeto direto.
- Está complicado.
- Vamos, tente mais uma.
- Vou deixar consigo esta lembrança.
- Novamente errado. Vou deixar com você esta lembrança.
- Por que?
- Consigo só se emprega na voz reflexiva: Guarde consigo esta lembrança.
- Eu amo ela.
- Errado. Eu a amo.
- No amor não existe certo ou errado – protestou afônico.
- Não estamos falando de amor e sim de poesia.
- Em que diferem?
- Oras! Onde quer chegar?
- Quando a vi sair do escritório, soube de imediato que a queria ao meu lado, quando pensei em dizer-lhe isso, teu amigo disse-me que teria eu enganado a mim mesmo então, pedi-lhe ajuda tentando deixar-te uma lembrança.
- Empregou muito bem as frases que escreveu e de forma correta. Só esqueceu-se de uma.
- Verídico, irei adscrever o “eu amo ela”.
- Está errado, acabamos de corrigir.
- E se eu quiser mudar o pronome e substituir por outra palavra?
- Qual outro?
- Você.

Bom/Mau



Categorias são nosso instrumento de pensar. São conceitos, nomes pelos quais nós classificamos, ordenamos e atribuímos calores a tudo aquilo com que se entra em contato. No começo, bom e mau são categorias básicas mesmo, porque derivam dos aferidores fundamentais (que fundam) da nossa consciência: prazer e desprazer.
Meus primos vêm um desenho animado e perguntam-me sobre os personagens: “Ele é do bem ou é do mal?”. E eu não me aflijo com esse reducionismo. Sei que eles querem saber se o personagem é agradável ou desagradável. Sei vai causar medo ou conforto. Sempre respondo: “Vão vendo aí, que eu ainda não sei. Depois vocês me dizem”. Quero que eles consultem, percebam o efeito causado e concluam a partir dessa consulta a eles mesmos.
Com os desenhos a mesma coisa sempre termina num julgamento único: ou é do bem, ou é do mal. Minha prima tem sete anos e assiste à novela conosco – quando me acomete assistir. O julgamento aí começa a se sofisticar: “às vezes eu gosto dessa moça, às vezes não gosto”. Opa! Olha só ela tolerando a ambivalência, sem apressar a dar um rótulo definitivo. “Mais ou menos” e “ainda não sei” estão aparecendo como categorias, sem o descarte nem adesão automáticos que os julgamentos sumários produziam. Categorias intermediárias são categorias do ensaio. Possibilitam o pensamento, a reflexão, não fecham, deixam em aberto, podem ser revistas, refeitas, não são absolutas, arrogantes, não damos a elas a importância de dogmas, por isso elas é que nos servem, não temos que servir a elas.
Só que a cultura acaba impondo novos critérios de bom/mau quando diz que determinadas coisas são prêmio, aplauso, torrão de açúcar e outras dão castigo, desprezo, chibatadas, o que acaba por fazer com que desempenhemos funções desprazerosas só para evitar a chibatada e ganhar torrão de açúcar. Nessa nova escala de valores o “mais ou menos” e o “ainda não sei” se perdem, porque é preciso decidir logo, chegar logo, aderir logo ou se descartar logo, se o resultado pode ser prêmio ou castigo.
A conseqüência de só ter essas novas categorias de bom/mau é que ficamos aprisionados ao “ou isto ou aquilo”, e muitas discussões, mesmo as que travamos dentro de nós, que poderiam chegar a um acordo pela tolerância com a incompletude, só fazem reafirmar as posições iniciais (que devem ser boas em bloco, qualquer concessão pode torná-las más). Aderidos ao “ou isso ou aquilo”, os debatedores não discutem com finalidade de esclarecimento, mas para ganhar. E aí, você já sabe: se ganham, são bons, se perdem, são maus.
Com essa pressa de fechamento, as chances de reflexão são menos, a culta a si mesmo é menos importante do que a consulta ao ibope da cultura. Ganhar é mais importante. Nesse caso, os bons vencem, mas não convencem. Levam vantagem, mas não contribuem.
Com o tempo, essa prática nos distancia de critérios próprios de prazer/desprazer, passamos a comprar bom/mau da cultura sem uma visão crítica do tipo “isso é chato, desprazeroso, mas tudo bem, eu vou fazer porque precisa ser feito, não porque eu gosto, mas assim que puder transformo isso, que percebo necessário, em alguma coisa mais prazerosa para mim mesmo, ou ainda, vou me perguntar profundamente se é necessário mesmo, e se eu chegar à conclusão de que não é, eu elimino minha vida” passamos a nos afastar cada vez mais de nós mesmos até não saber mais quem somos.

Começo a conhecer-me. Não existo.
Sou intervalo entre o que desejo ser e os outros me fizeram, ou metade desse intervalo, porque também há vida...
Sou isso, enfim [...]
                                 Fernando Pessoa.

A partir daí, penso estar respondida uma pergunta que poderia surgir diante do título dessa primeira parte: “Ser eu mesmo? Mas quem eu haveria de ser senão eu mesmo?”. Constatando o que Fernando Pessoa constatou, o “seu eu mesmo” aparece como uma construção trabalhosa. É mais trabalhosa na medida em que nos acostumamos ao bom/mau do segundo tipo (prêmio/castigo) e em que não temos treino do primeiro (gosto/não gosto).

Freud ensinou que o nosso “ser eu mesmo”  se constrói a partir de identificações de duas espécies: a primeira é por imposição – “Tem que ser desse jeito, senão...”. Essa é a do prêmio/castigo. A segunda é mias mais tica e ampla, se dá por gosto. Alguma coisa ou pessoa nos dá prazer, esse prazer faz com que se invista nela nossa atenção (nosso desejo, curiosidade, vontade). Desse jeito aprendemos sobre a coisa ou pessoa, passamos a imitá-la, até que ela se incorpore a nós, nos tornamos idênticos a ela, ou melhor, um fragmento nosso se torna idêntico a ela.
Quem não se lembra de alguma vez ter passado a falar de um jeito parecido com o de alguém que admirava? Quem não começou a aprender inglês imitando sem entender as letras das músicas que gostava? Ou que não se lembra de um livro que foi tão interessante que influenciou sua vida? O mais curioso desse segundo processo de identificação é que o tal fragmento copiado, já que o processo não é impositivo, é modificado sutilmente, no processo de incorporação, por outros fragmentos que já se compõem o nosso “eu” para que ajuste-se bem a nós. Assim ele se torna uma composição realmente original e única. É uma identificação, não um plágio.
O que nós somos, por esse processo, não é uma colcha de retalhos comum. Seus pedaços não se juntam por costura, mas se fundem numa trama nova, pois cada novo pedaço influencia todos os outros, como se acontece nas releituras da nossa história à luz dos fatos novos (essas horas que nós dizemos: “Ah, agora que eu sei disso, começo a ver as coisas de um jeito diferente”).
É nessa releitura que consiste o potencial criador e transformador da pessoa que a psicanálise tem. É essa permanente capacidade de revisão permitira pela identificação por gosto, que é a força construtora e conhecedora do “seu eu mesmo”.